Moacyr Barbosa: condenado a 43 anos por um crime que não cometeu
Eleito melhor goleiro da Copa do Mundo de 1950, viveu o resto da vida como bode expiatório de Ghiggia.
Quando Alcides Ghiggia chutou rasteiro rente à trave, explodiu no Maracanã o silêncio mais estrepitoso da história do futebol.
Duzentos mil gritos tinham sacudido o estádio minutos antes, quando Friaça abriu o placar. Depois Schiaffino empatou. O Brasil precisava apenas de um empate para levantar a Taça Jules Rimet em casa e o país inteiro já comemorava. Relógios de ouro gravados no dorso — "Aos campeões do mundo" — tinham sido entregues na véspera. Meio milhão de camisetas comemorativas já estavam vendidas. As primeiras páginas dos jornais saíam impressas antes do apito final.
Ghiggia, ponta direita uruguaio, surpreendeu Moacyr Barbosa com um chute certeiro. O goleiro estava adiantado, deu um salto para trás, encostou na bola e caiu. Quando se levantou, certo de que havia desviado o tiro, encontrou a bola no fundo da rede. 2 a 1 para o Uruguai. O impensável tinha acontecido.
Ary Barroso, autor de Aquarela do Brasil, transmitia a partida para todo o país. Depois daquele gol, abandonou para sempre o ofício de locutor de futebol. Jules Rimet perambulava pelo campo, perdido, abraçado ao troféu que levava seu nome, com um discurso de homenagem ao campeão brasileiro ainda no bolso.
Moacyr Barbosa não era o vilão da história. Seria, pouco depois, eleito por unanimidade o melhor goleiro do torneio.
A final que já estava ganha
O torneio de 1950 marcou o retorno da Copa Jules Rimet depois do longo parêntese da Segunda Guerra Mundial. Sete países americanos e seis nações europeias, recém-ressurgidas dos escombros, desembarcaram no Rio de Janeiro.
A Fifa proibiu que a Alemanha jogasse. Pela primeira vez, a Inglaterra compareceu ao campeonato mundial e caiu derrotada pelos Estados Unidos, num gol que não foi obra do general George Washington, mas de um centroavante haitiano e negro chamado Larry Gaetjens.
Nada disso parecia importar na tarde da final. O Brasil e o Uruguai disputavam o título no Maracanã, estreando o maior estádio do mundo. O dono da casa era uma barbada. A final era uma festa.
Os jogadores brasileiros receberam, na véspera, relógios de ouro gravados no dorso. Já estava armado o imenso cortejo de carnaval que ia encabeçar os festejos. Quando Friaça converteu o primeiro gol, um estrondo de 200 mil gritos e muitos foguetes sacudiram o monumental estádio.
Depois veio Schiaffino. Depois Ghiggia. Quando houve o gol uruguaio, explodiu o silêncio, o mais estrepitoso da história do futebol, nas palavras de Galeano. Depois do apito final, comentaristas brasileiros definiram a derrota como a pior tragédia da história do Brasil.
Jules Rimet perambulava pelo campo, perdido, abraçado ao troféu que levava seu nome. Acabou por encontrar o capitão uruguaio, Obdulio Varela, e entregou-lhe a taça quase às escondidas, apertando-lhe a mão sem dizer nem uma palavra.
No bolso, Rimet ainda levava o discurso que tinha feito em homenagem ao campeão brasileiro.
O melhor goleiro do Mundial
Na hora de escolher o melhor goleiro do campeonato, os jornalistas da Copa do Mundo de 1950 votaram, por unanimidade, no brasileiro Moacyr Barbosa.
Não era um prêmio de consolação. Barbosa era, sem dúvida, o melhor goleiro de seu país — pernas com molas, homem sereno e seguro que transmitia confiança à equipe. Em tantos anos de futebol, evitou quem sabe quantos gols, sem machucar nunca nenhum atacante. Continuou sendo o melhor até se retirar dos gramados, tempos depois, com mais de 40 anos de idade.
O Brasil de 1950 esmagava rivais de goleada em goleada. Ademir encabeçou o quadro de artilheiros, com nove gols, seguido pelo uruguaio Schiaffino, com seis, e pelo espanhol Zarra, com cinco.
A Suécia ficou em terceiro lugar no torneio; a Espanha, em quarto. Na final, a seleção uruguaia cometeu onze faltas; a brasileira, 21. O Uruguai tinha se imposto limpamente, mas a derrota foi definida pelos comentaristas brasileiros como a pior tragédia da história do país.
Barbosa não falhou ao longo do torneio. Falhou, na leitura popular, num único lance, em um momento em que o estádio mais novo, e maior do mundo, esperava uma coroação que nunca veio.
Galeano insiste num detalhe que a crônica esportiva costuma ignorar: em tantos anos de futebol, Barbosa evitou quem sabe quantos gols sem machucar nunca nenhum atacante. Serenidade e segurança não são adjetivos decorativos. São a base de um estilo que faz a defesa inteira jogar mais alta, mais confiante. O goleiro que transmite calma raramente aparece nas manchetes, até aparecer no fundo da rede numa final.
O gol que ninguém perdoou
Ghiggia tinha espaço pela ponta direita. Barbosa, adiantado, leu cruzamento onde havia chute rasteiro.
O relato de Eduardo Galeano é preciso na crueldade do gesto: o goleiro chega a tocar na bola, cai, levanta convicto de que desviou. E só então vê a rede balançando. Esse foi o gol que esmagou o Maracanã e fez o Uruguai campeão do mundo pela segunda vez.
A derrota transformou-se em busca de culpados. O trauma nacional precisava de rosto e, no futebol, costuma ser o do goleiro. Barbosa carregou sozinho um peso que pertencia ao time inteiro, à euforia pré-jogo, ao silêncio que paralisou os companheiros quando Schiaffino empatou.
Passaram-se os anos. Barbosa nunca foi perdoado.
A injustiça não ficou restrita à imprensa ou à arquibancada. Virou condenação permanente, como se um único lance tivesse apagado uma carreira inteira de defesas, de serenidade, de confiança transmitida aos que jogavam à sua frente. Galeano não detalha cada humilhação. Não precisa. A sentença social durou mais do que qualquer pena legal.
Enquanto Obdulio Varela, o capitão uruguaio que esfriou a partida quando a avalanche brasileira parecia irreversível, passava a noite bebendo cerveja de bar em bar no Rio, abraçado aos vencidos, Barbosa carregava dentro do próprio país o rótulo de quem tinha feito a nação chorar. Varela fugiu da euforia em Montevidéu disfarçado de Humphrey Bogart. Barbosa não teve para onde fugir. O Maracanã ficou para trás; a condenação, não.
Quarenta e três anos depois
Em 1993, durante as eliminatórias para a Copa do Mundo dos Estados Unidos, Barbosa quis dar ânimo aos jogadores da seleção brasileira. Foi visitá-los na concentração.
As autoridades proibiram sua entrada.
Naquela época, Barbosa vivia de favor na casa de uma cunhada, sem outra renda além de uma aposentadoria miserável. Tinha 72 anos. Quarenta e três anos antes, era o melhor goleiro do Mundial. Agora não podia nem cruzar o portão do CT.
"No Brasil", comentou, "a pena maior por um crime é de trinta anos de cadeia. Há 43 anos pago por um crime que não cometi."
A frase resume a biografia pública de Barbosa melhor do que qualquer estatística. Não era autodefesa técnica sobre o lance de Ghiggia, embora goleiros e analistas tenham debatido por décadas se Barbosa poderia ter feito diferente. Era o registro de uma pena que ultrapassava o código penal: rejeição, abandono, proibição simbólica de voltar ao único lugar onde sempre pertencera.
Barbosa morreu em 2000, sete anos depois daquele episódio de 1993. A carreira nos gramados tinha terminado décadas antes, com mais de 40 anos e a reputação intacta dentro das quatro linhas. Fora delas, a condenação continuou.
A ironia final é brutal: em 1950, Barbosa recebeu de jornalistas estrangeiros o reconhecimento que o Brasil lhe negou por quase meio século. Eleito melhor goleiro da Copa do Mundo por unanimidade e proibido de entrar na concentração da seleção 43 anos depois, quando só queria dar ânimo a quem tentava reconquistar o título que se perdeu naquele julho.
Goleiros crucificados
Galeano situa Barbosa numa linhagem cruel do futebol mundial: arqueiros transformados em bodes expiatórios nacionais.
No Mundial de 1958, o argentino Amadeo Carrizo pagou o pato pelo fracasso da seleção da Argentina. No de 1966, o brasileiro Manga, que Galeano lembra como o goleiro de mãos grandes e chutes de arco a arco, cometeu uma saída em falso contra Portugal, sofreu um gol e teve de sair do Brasil. Por muito tempo, os erros dos goleiros passaram a ser chamados de "mangueiradas". Antes disso, em 1950, Moacyr Barbosa tinha sido crucificado por causa da derrota brasileira na final do Maracanã.
O padrão se repete porque o goleiro ocupa uma posição única: é o último obstáculo, o rosto visível quando a bola entra. A derrota de 1950 foi coletiva. Euforia antes do jogo, silêncio no empate, avalanche uruguaia no segundo tempo. Barbosa ficou com a sentença.
Ele ficou com a eternidade de quem foi o melhor e com a eternidade de quem nunca foi absolvido.
Em Futebol ao sol e à sombra, Eduardo Galeano não tenta absolver nem condenar Barbosa. Resume o Maracanazo em poucas páginas que misturam o silêncio de Ary Barroso, a humildade de Obdulio Varela e a sentença que ainda em 1993 impedia o goleiro de cruzar o portão do CT, o retrato humano por trás de um dos maiores traumas da seleção brasileira.