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Toma, faz o teu: a lição de Saldanha sobre o que é ser craque

Ao ver Zico decidir Brasil 3 a 1 sobre a Argentina na Copa do Mundo de 1982, Saldanha definiu o que faz um jogador ser craque.

Sarrià, Barcelona, 2 de julho de 1982. O Brasil precisava vencer a Argentina para seguir vivo na fase mais dura daquela Copa do Mundo, um grupo que também tinha a Itália e que só deixaria passar um time para a semifinal.

Zico não teve, segundo o próprio João Saldanha, a partida mais brilhante da vida naquela tarde. Mas quando o juiz apitou o final, três das jogadas mais importantes do jogo tinham a marca dele.

Uma delas terminou no terceiro gol brasileiro: Zico encontrou Júnior avançando pela esquerda, e o lateral venceu o goleiro Ubaldo Fillol. Saldanha associou o lance a uma jogada conhecida do Flamengo, resumida por uma ordem imaginária: toma, faz o teu.

O debate que já rolava antes do jogo

Dias antes daquele confronto, Saldanha já discutia em sua coluna no Jornal dos Esportes quem seria o craque daquela Copa. A lista de candidatos era curta e badalada.

Zico, pelo Brasil. Maradona, pela Argentina, recém-comprado pelo Barcelona e observado com uma mistura de fascínio e desconfiança. Kevin Keegan, o inglês baixinho e vitorioso que não conseguia repetir na Espanha o que fizera na Inglaterra e na Alemanha. Karl-Heinz Rummenigge, então detentor da Bola de Ouro, mas jogando contido por uma contusão no joelho.

Saldanha ainda citava um nome fora do eixo Brasil-Argentina: o polonês Boniek, que até aquele momento do torneio tinha sido, na opinião dele, o melhor atacante em campo, até mais decisivo que o soviético Blokhin.

Sua conclusão, antes do jogo contra os argentinos, era direta: em média, sem que nenhum deles tivesse sido excepcional o tempo todo, o melhor daquela Copa até então era Zico. Mas o craque da competição, dizia ele, ainda não tinha aparecido de verdade.

Um gol, um passe e uma jogada de bandeja

A Argentina entrou em campo precisando vencer de qualquer jeito e se atirou para a frente desde o primeiro minuto, com marcação dura sobre os brasileiros. Segundo Saldanha, o próprio descontrole argentino acabou favorecendo o Brasil: quem precisava de um gol passou a precisar de dois.

O primeiro saiu depois de uma cobrança de falta que acertou o travessão. Zico aproveitou o rebote e abriu o placar.

Depois veio o segundo gol, num lance que uniu duas das principais referências do meio-campo brasileiro daquela geração. Zico lançou Falcão, que fez o que Saldanha chamou de entrada magistral pela direita e cruzou para Serginho cabecear, ampliando o placar.

O terceiro foi o mais simbólico para a tese. Zico recebeu e serviu Júnior, que avançou pela esquerda e marcou. A Argentina só descontaria nos minutos finais, com um belo gol de Ramón Díaz, de fora da área, acertando o ângulo de Valdi Peres, mas obviamente pouco comemorado.

Pelo meio do caminho, Passarella entrou de forma dura sobre Zico, num lance que Saldanha classificou como imperdoável. E Maradona, tomado pela frustração de ver a Argentina cair diante de um adversário que crescia, acertou uma entrada violenta em Batista, que lhe custou a expulsão. Para o cronista, a expulsão resumia um time que tinha perdido o controle da própria cabeça.

Foi observando essa sequência de jogadas, mais do que qualquer lance isolado de virtuosismo, que Saldanha chegou à sua definição. O craque pode ter uma tarde irregular e ainda assim ser o homem que muda o placar. Em uma jogada, às vezes só uma, ele decide o jogo. É por isso que vale mais do que os outros.

Craques que quase foram descartados

Saldanha não construiu essa ideia isolada. Ele lembrava de outros dois nomes que, em algum momento da carreira, quase foram tratados como problema em vez de solução.

Saldanha lembrava que Garrincha, no Botafogo, chegou a ser tratado como um jogador difícil de encaixar num time organizado. Também recuperava as críticas dirigidas a Didi depois da eliminação brasileira em 1954.

Quatro anos depois, na Suécia, veio a resposta. Didi foi reconhecido como o melhor jogador da Copa do Mundo de 1958 e recebeu da imprensa europeia o apelido de "Mister Football". Garrincha também fez grandes partidas naquela campanha, mas, segundo Saldanha, foi Didi quem mais se destacou.

Mais tarde, Didi foi jogar na Espanha, e voltou ao Brasil em meio a comentários de que, para ser craque de verdade, seria preciso se firmar na Europa. Ele respondeu do jeito mais eficiente possível: voltou para a Seleção Brasileira e conquistou de novo a Copa do Mundo, em 1962. Naquela edição, o dono absoluto do torneio foi justamente Garrincha, o mesmo jogador que um técnico, anos antes, quase dispensou.

O gol mais bonito que não foi gol

Para reforçar a tese, Saldanha usava ainda um episódio de Pelé, na Copa do Mundo de 1970. Segundo ele, o gol mais bonito da carreira de Pelé, entre mais de mil marcados, não chegou a entrar.

Foi contra a Tchecoslováquia. Pelé recebeu no meio de campo, viu o goleiro Viktor adiantado e arriscou um chute de longa distância, quase da linha do meio, tentando surpreendê-lo pelas costas. A bola passou perto, mas saiu.

Não valeu como gol na súmula. Para Saldanha, porém, a tentativa comunicou aos adversários que o Brasil se permitia criar de qualquer lugar do campo. Era um exemplo de sua tese: a influência de um craque não cabe apenas no placar.

Um garoto chamado Maradona

Voltando à Espanha 82, Saldanha não deixava Maradona de fora da conversa sobre craques, mesmo depois da expulsão contra o Brasil. Pelo contrário: usava o próprio nervosismo do argentino como prova do argumento.

Saldanha descreveu a apreensão da torcida brasileira sempre que Maradona recebia a bola. Mesmo numa atuação marcada pela frustração e pela expulsão, o argentino provocava o medo reservado aos jogadores capazes de decidir sozinhos.

Maradona ainda era um garoto, segundo Saldanha, comprado a peso de ouro pelo Barcelona e pressionado por expectativas enormes numa Copa do Mundo em que a Argentina defendia o título conquistado em 1978.

Perdeu a cabeça naquela tarde porque não esperava ser derrotado, depois de ser marcado sem descanso. Pelé, Didi, Gérson e Zizinho, lembrava Saldanha, sempre reagiam à provocação de outro jeito, sem se descontrolar.

Mas isso não tirava de Maradona o estatuto de craque. Só mostrava que ele ainda precisava aprender a carregar esse peso.

O que realmente faz um craque

A definição de Saldanha, no fundo, era uma provocação contra o senso comum. Muita gente, escrevia ele, só reconhece o craque quando o vê brilhar do início ao fim, driblando todo mundo até o gol. E não perdoa quando esse mesmo jogador tem uma partida ruim, ou uma sequência inteira de partidas ruins.

Para Saldanha, isso era um erro de leitura. Quem decide o resultado numa jogada continua sendo o centro da conversa no dia seguinte — inclusive quando a crônica insiste que ele "não jogou bem". Craque é craque, escreveu, encerrando o argumento sem deixar margem para dúvida.

Zico, naquela tarde em Sarrià, tinha sido exatamente isso: irregular por trechos, decisivo nos momentos que valiam o resultado.

É esse tipo de observação de bastidor e de arquibancada, feita por quem também comandava seleções e enxergava o jogo por dentro, que dá o tom de Futebol & Outras Histórias, livro em que João Saldanha reúne crônicas, memórias e discussões como essa sobre o que realmente separa um craque de um bom jogador.

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